Monday, January 31, 2011

Há anos atrás, um ribeiro que passa perto de minha casa tinha um determinado cheiro. O ribeiro mantem-se mas o cheiro desapareceu por terem encerrado as fábricas que desaguavam os seus produtos no caudal.

Ora, o cheiro a que me referi acompanhou-me desde que nasci até ao momento incerto, porque não consigo especificar, em que deixou de povoar o ar.
Só relativamente tarde passei a conviver com mais do que vizinhos e, por isso, só relativamente tarde comecei a receber amigos de fora em minha casa. Quando isto começou a acontecer, vários deles se queixaram do cheiro daquele ribeiro, incomodava-os, não era agradável.
A mim, contudo, mais do que não me incomodar e mais do que suportável, trazia algo de confortável... na altura nenhuma luz se fez mas, mais tarde, percebi que tinha assumido aquilo como um sinal de casa e, por isso mesmo, um sinal de afecto.

Comparando, é mais ou menos como alguns dos pratos que a minha mãe faz.
A minha mãe não é, nem de perto nem de longe, uma grande cozinheira, sei disso muito bem, mas a verdade é que o mesmo prato magnificamente confeccionado não me sabe tão bem como o outro, mais rudimentar e menos bem confeccionado.
É outra marca de casa, outra cor de afecto.

Isto porquê?
Porque é inacreditável aquilo que se entranha na nossa pele. É quase assustador como o medíocre e fétido pode tornar-se algo absolutamente diferente pelo simples facto de nos fazer sentir mais próximos....não necessariamente melhor....mas mais próximos...

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1 Comments:

Blogger A Escafandrista said...

a tua sinceridade sempre tão "nua e crua" e a escrita realista caracteristicas do teu blog...

achei brilhante o comentário q deixaste no meu blog... disseste o que muitos não tem a coragem de dizer. abraços.

12:49 PM  

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