Monday, December 10, 2018


Ânimo

A falta de ânimo esgota-me.
A ligação mente - corpo não me é exclusiva. Também não sou dos que acha que tudo é uma questão de mentalidade. A exaustão existe. O corpo tem limites,
...mas se me falta ânimo falta-me tudo.

Detesto andar de avião e quanto mais longa a viagem mais a detesto.
Da última vez, passaram 36 horas desde que entrei no primeiro até que cheguei ao meu destino e 36 horas rebentam mesmo os que gostam ou, pelo menos, detestam menos do que eu andar em trânsito aéreo.

Dá-se que quando as 36 horas terminaram teria encarado, no imediato, mais uma batelada delas porque era algo que queria fazer. O meu corpo não deu ares de estar vencido.
Não estava cansado nem com sono, apesar de perdido nas horas e de ter dormido, ao todo, uma 2 horas no decorrer das 36.

...mas, depois, dormi e dei conta de ter regressado.
Caiu-me a ficha que iria ficar por cá muito mais tempo do que desejaria e que voltaria ao quotidiano que não aprecio por aí além.
Tinha descansado;
Estava, novamente, em fuso horário conhecido;
Estou, agora, muito cansado.

A isto não é alheia a maravilhosa quadra em que estamos todos metidos mas...ânimo. Tudo ânimo.

Não tido fotografias desde que voltei e não é, necessariamente, por falta de tempo. Também não estou com a maior das vontades.
Os sinais não são bons.
Nesta época, nunca são bons mas costumam passar.

Pode ser que a meio de Janeiro esteja de regresso.

Thursday, December 06, 2018

...e aí está o Natal!

Chegou a altura da minha diatribe anual quando a esta quadra e ao Ano Novo que o segue. Confirma-se, uma outra vez, que Dezembro é o meu pior mês do ano.
Este ano demorou um bocado a chegar e até pensei que saltasse uma ano da mesma forma que algumas características genéticas saltam uma geração. 
Pensei mal.

Normalmente - segundo a minha falível memória - rebelo-me contra a hipocrisia em que esta época é pródiga. É certo que a hipocrisia não tem uma estação em concreto mas mais certo é que ganha proporções diferentes nesta altura.
Temos a hipocrisia do somos todos irmãos e ajudamos os pobres do Natal e a do vou mudar e ser melhor! do Ano Novo.
Detesto as duas mas em maior medida a segunda. A primeira, pelo menos, beneficia quem precisa ainda que apenas uma vez ao ano enquanto a segunda é só estúpida.

Vamos deixar a hipocrisia de fora.
Vamos centrar-nos no sentimento de exclusão que, como a hipocrisia, não tem estação mas que aumenta de intensidade.

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Parece-me que andei na ilusão de que não seria afectado pela quadra porque não estive cá quando começou a borbulhar e no estrangeiro tinha mais com o que me preocupar...ao que acresce que apesar de haver decoração natalícia nos trópicos o clima impediu-me de a sentir.
....e depois cheguei.
Ainda tive uma semanita de paz mas acabou. Andei uma semana meio anestesiado e em modo caralho, era tão mais fixe não ter voltado! mas acabou.

Jantares de Natal;
Anúncios de televisão;
Conversa quanto à indumentária para os jantares;
Recolhas de alimentos por ser Natal;
Decisões quanto a onde passo 24 e onde passo o 25;
O que se quer receber e o que se quer dar de presente;
Decorações e montagem de merdas;
Cobertura dos enfeites de Natal da cidade;
Confirmações de comparência a cenas.
Foda-se.

Quando dei com as costas por cá, tinha 4 jantares de Natal para os quais tinha de decidir se ia. Maluco como andava, ponderei dar um sim a todos.
...e depois o tempo passou.
A 2 deles não poderei falta e já confirmei;
A 1 deles já me desmarquei;
A 1 deles estou com esperança de não ir mas é muito ténue;
E ainda falta 1 outro que ainda não apareceu mas que estará para aparecer ainda que a minha esperança seja poder dizer ah, já tenho tudo cheio até Janeiro...

A racionalidade não me permite embarcar em muitas fantasias e uma dessas fantasias é tempo de família.
Família não me diz grande coisa. Pode ser por nunca ter tido uma com muita gente; Poder ser por não apreciar ser desiludido e quem está ou esteve mais próximo ter mais hipóteses de o fazer; Pode ser porque a ligação de sangue é uma tanga inventada para nos fazer achar que algo de mágico se passa que impede uma avaliação que faríamos e fazemos a todos os que nos rodeiam.

Sou pela terceira.

Ah, é sangue do meu sangue! e A família é o mais importante! e A família é tudo! e, o pior, pensar que se elogia alguém ao dizer-se Tu és como da minha família!.
Tanga. Tudo tanga.

A cartada somos família sinto-a sempre como a de um parasita que está a falar com o hospedeiro.
Afinal, quando é que se ouve este tipo de expressões quando não é para pedir alguma coisa ou para justificar uma qualquer merda que se fez?
É sempre quem anda a correr atrás do prejuízo que manda este tipo de linhas.

O problema é que tudo isto que escrevo é incrivelmente desadequado.
Ah, K, mas tu não queres saber o que as pessoas pensam de ti nem do que tu achas!!
É certo. É mesmo verdade.
Há, contudo, o seguinte:
muitas vezes digo e penso que é inacreditável como é que uma pessoa de quem ninguém gosta não pára para pensar caralho, se calhar sou eu ou quando alguém que falha de relacionamento em relacionamento não pensa caralho, se calhar sou eu.
...nesta época temo ser uma destas pessoas por uns momentos.

Vejo um Mundo unido em irmandade - que sei ser falsa - e toda esta unanimidade leva-me a ponderar o raciocínio que referi: caralho, se calhar sou eu...
E se durante a esmagadora maioria do tempo sou capaz de perceber não, não sou eu. Pode dar-se o caso de estar sozinho mas não estou errado! todo este bombardear faz um ou outro buraco na minha armadura.

Estou farto disto e ainda nem a meio cheguei.

Tuesday, December 04, 2018

Machismo ou Realismo?

Quando andava a pesquisar os lugares para onde queria ir, excluí desde logo países em que o islamismo fosse muito predominante.
Ah, K, xenofobia!! clamarão.
Não é.
Sou muito tolerante com as crenças dos outros, especialmente com as crenças que são praticadas no próprio lar e, para mim, o País é o lar dos nacionais. Em abono da verdade, em muitos aspectos - incluindo históricos - sou mais apreciador da cultura islâmica do que da católica onde ando embrenhado todos os dias.

Então, porquê?
Bem...mulheres.
A minha experiência em países muçulmanos acompanhado não foi boa. As mulheres estrangeiras são demasiado assediadas e, quando sozinhas, pode dar-se de serem ainda mais que isso; quando acompanhadas por mim, dá-se que a coisa pode azedar.
Ah, mas as mulheres são assediadas em todo o lado! Sim. Mas os graus são diferentes.

Uma estrangeira de bikini é o absoluto oposto de uma nacional tapada dos pés à cabeça e a minha impressão - vamos chamar-lhe impressão - é que a indumentária ocidental (não falo só de bikinis; calções e tops não são muito diferentes) será código para hmm, esta gaja não é merecedora de respeito ao que poderá ser acrescentado o pouco hábito de ver pele feminina nas ruas.

Isto chegaria mas não é só isto.
Estive, por exemplo, com a Indonésia em vista mas eu não queria ir a Bali - sim, eu não quero ir para onde os outros vão mas isso pode ser tema para outro post - e indo para onde queria ir significaria que Ela não usaria a roupa que quer usar num país quente e na praia.

Reforço o seguinte: a minha postura quanto às questões de roupa e tal não é crítica. Sou eu quem vai para lá e sou eu quem tem de se sujeitar. E como não A queria sujeitar, risquei a possibilidade.

Mas em qualquer circunstância, viajar com Ela limita-me.
Há coisas que eu faria e não faço porque considero um risco excessivo para Ela suportar;
Há coisas que eu faria e não fiz porque Ela tem um receio que em mim não existe e forçá-la para lá do razoável não é algo que queira fazer;
Há mínimos que se impõe porque o bem-estar dela me preocupa muito mais do que o meu. Eu arriscaria não ter onde dormir e passar a noite numa praia ou estação de camionetas (já o fiz) mas não o farei com Ela.

Ah, K, isso é machismo! Achas que só por ser mulher não suporta o mesmo que tu!
Duas coisas:
1. Não é que ache que Ela não suporta. É que não a quero colocar numa posição em que tenha de suportar;
2. Sim, acho que por ser mulher suporta menos que eu em determinadas circunstâncias porque o corpo dela tem limitações mais próximas do que as minhas e as pessoas não olham para Ela como olham para mim.
(pedi-lhe para ir pagar o pequeno-almoço e quando voltou, uns minutos depois, disse-me que o gajo lhe tinha cobrado mais do que era devido. Mas não lhe explicaste?! ao que Ela respondeu expliquei mas ele insistiu e eu desisti.
Fui lá. Disse-lhe o mesmo e em meio minuto voltei com o dinheiro que não havia de ter sido pago. Disse o mesmo e dei a mesma justificação mas ela não tem nem voz grossa nem 100 kgs a apoiar as palavras.
Quem acha que Homens e Mulheres são literalmente iguais é estúpido ou nunca saiu da bolhinha que criou)

Admito que isto possa parecer um longo acumular de palavras para terminar com prefiro ir sozinho mas não é.
Mentiria se dissesse que em determinados momentos não penso que seria melhor e mais fácil se fosse só eu mas, ponderando todo o tempo, não preferia ir sozinho.

Ela não limita muito. Eu é que não tenho quase limites.
Ela parece bichinha quando comparada comigo mas não é bichinha em geral.

Ela que apenas fez resorts e tours guiadas, mandou-se para o outro lado do Mundo durante 3 semanas sem nada marcado além de uma viagem de avião e duas noites no primeiro lugar. E sabia que vida de hotel era para esquecer. E sabia que esta merda não ia ser estar sentado na berma da piscina - piscina que nunca existiu! - a matar umas bebidas.

O que descrevi não é uma dissertação sobre machismo ou sobre preferir ir sozinho.
O que descrevi é a realidade.

E não, não preferia ter ido sozinho.

Friday, November 30, 2018

Viajar

1. É possível que soe um bocado possidónio (sa foda);
2. É provável que seja mais uma manifestação de eu não sou de cá!. Se for, é só mais uma.

As perguntas que mais me têm sido feitas são superou as expectativas?, como são as praias? e o que há para ver?.
São óbvias e comuns.
Em tese, compreendo-as. Intimamente, não as percebo.

...

Comecei a viajar em vez de ir de férias antes de compreender a diferença entre uma coisa e outra.
A primeira vez que fui para longe caí em lado nenhum. Caí num lugar onde não havia nada para ver.
Tinha praia e o clima era tropical. Não sabia mais que isto.
Acabei por chegar a uma aldeia piscatória onde havia autóctones e meia dúzia de surfistas. A noite acabava as 23hs e eu tinha 20 anos. 
Tinha previsto demorar 8 horas desde o aeroporto onde cheguei até ao lugar onde ia ficar. Demorei mais de 18.

Adorei.
Foi a melhor coisa que me aconteceu.

Depois disto, férias e atracções deixaram de me interessar mas, naquela altura, por ignorância e juventude, não conhecia ninguém que viajasse e nem literatura de viagem que reflectisse o que tinha vivido.
As pessoas que falavam ou escreviam sobre viagens mostravam tudo espectacular e os lugares incríveis onde tinham ido e a comida deliciosa que tinham encontrado e a eterna animação e alegria da viagem.
...a minha experiência não tinha sido - e nunca mais seria - nada de semelhante ao que via naquelas pessoas.
Tive momentos chatos em que tinha vontade de falar com alguém que não estava lá;
Fui a lugares horríveis onde nunca voltaria;
Senti-me em baixo quando o plano não resultou ou quando a escolha foi errada;
Comi mal alguma vezes porque não existe lugar em que não se encontre comida de merda.

E, depois, descobri o Paul Theroux, sem querer.
Descobri aquilo que, para mim, é literatura de viagem e aquilo que tentava fazer sempre que ia para qualquer lado e também o que me acontecia.

A viagem são os transportes públicos e os restaurantes onde os locais comem e as zonas onde, de facto, vivem e o aspecto das suas escolas e os atrasos e as quedas e as ruas desagradáveis e as pessoas com quem se vai falando e que não são, directa ou indirectamente, nossas empregadas no momento ou que não nos querem vender nada.

Antes de azedar, deixam-me dizer que não critico quem não quer ir fazer o mesmo que eu.
As pessoas querem fugir do seu quotidiano mas não do cultural. O que as pessoas querem é, durante uma semanita, viver num quarto que não têm e comer comida que não cozinham e parecer quem não são.
Eu também quero fugir do meu quotidiano mas mesmo para sair dele. Mesmo para conhecer o que não conheço.

..............

Depois de tantas vezes ouvir aquelas bem intencionadas perguntas começo a ficar irritado.

É-me impossível entender como pode alguém imaginar que faria 20hs de avião para ver praias e muitíssimo menos para ver edifícios ou monumentos ou merda desse tipo.
Adoro praias e a minha vaidade - e olhos verdes - adora estar morena;
Prédios dizem-me coisa nenhuma;
Museus, muito pouco;
Monumentos, quase nada.
Ah, K, seu filisteu! poderão dizer e talvez estejam certos.
Se houver um museu ou um prédio ou um monumento para ver, é provável que os visite e, até, que goste deles. Mas 20hs de avião para isso? Tenho livros e televisão e fotos.
Ah, K, mas ao vivo é outra coisa!! e é mesmo mas não é outra coisa o suficiente para me prender a minha vida inteira num caixão de metal com asas onde nem sequer posso fumar!

O que eu quero é o lugar e o que o lugar é.
E isso é cultura. 
O que há para ver?! Tudo.

A questão das expectativas é pertinente mas o problema é que eu não vou com expectativas concretas.
A única coisa que levo na bagagem é vontade de ver o que não vejo aqui e conhecer o que não conheço aqui...e essa expectativa está garantida.
Mesmo que a pergunta versasse sobre se gostei ou não, ainda assim a provável resposta seria sempre sim porque ir nunca me desilude. Não fazer desilude-me.

E agora, que azedei:
Como pode alguém ir para um hotel e achar que conheceu alguma merda?
Como pode alguém conhecer apenas os guias turísticos e os empregados e dizer que adorou as pessoas?
Como pode alguém dizer o que há para ver? quando não vai ver nada que acrescente ao que outros viram e, provavelmente, viram melhor?
Como pode alguém dizer que alguma viagem é demasiado tempo quando passa uma semana (?!) num resort?

O que a maioria dos que nos rodeiam quer não é ir mas dizer que foi.
O que interessa é o que se viu na meia dúzia de fotografias mal centradas dos lugares mais batidos e com as frases mais emblemáticas e vazias que se conseguir.
O que querem é debitar umas merdas que reputam interessantes e explicar o quão bom era o Hotel.

Aparência? Tudo.
Substância? Nada.

...mas olham para mim como um atrasado mental que não percebe o o que há para ver?
Nesta minha viagem, o que mais interessou aos outros foi a cor e tonalidade das águas. Não se enganem! Era e é impressionante. Achei incrível. Lindíssimo. Nunca estive em lugar tão naturalmente belo na minha vida.
...mas pensam que - novamente! - farei 20hs para ver outra vez a água de lá?!

Tinha mais para escrever mas cansei-me.

Monday, November 26, 2018

Segurança

Pareço impulsivo mas não sou.
Pareço ser insensível ao perigo mas não sou.
Pareço nada temer mas temo.

Avalio, constantemente, os riscos que me rodeiam e ando sempre se antenas no ar.
Por exemplo:
terei cuidado nos transportes e nas ruas por onde ando mas apanharei os transportes e andarei nas ruas. É certo que algumas terão pior aspecto mas vejo, sempre, onde está a rua principal e o tipo de comércio existente nesta artérias com pior aspecto.
Andarei de costas direitas e cabeça levantada como se conhecesse e se tiver dúvidas não as demonstrarei, parece sempre que sei o caminho, coisa que raramente acontece porque o meu sentido de orientação é péssimo.

Avalio a situação e o risco e decido se é aceitável ou não.
As mais das vezes, entendo-o como aceitável.

Ela e outras pessoas têm muito mais medo do que eu mas, depois, não entendem bem os riscos. É esquisito.

Quando em Manila, a irmã dela - e Ela também - acharam que eu deveria andar com a minha máquina fotográfica na mão, como de costume, porque estava a perder muitas fotografias.
Estavam certas mas o que se passa é que o sítio era estranho e escuro e se eu não tenho medo, em geral, também não tenho vontade de me pôr a jeito.
...e ambas têm medo da própria sombra mas atrair risco desnecessário é um conceito que não dominam.

Ainda mais ou menos no mesmo assunto, Ela perguntou-me por que não estás a tirar mais fotos a pessoas, como costumas?! ao que respondi com a crueza com que entendo o Mundo:
Repara...eu não sei o quanto posso ofender as pessoas daqui com o meu comportamento e não quero ofender ninguém. Por princípio, tento respeitar a cultura onde estou metido mas, acima de tudo, gosto de sair dos sítios vivo.
Nós estamos no fim do Mundo - Roxas, em Palawan - pelo que, correndo mal, fazem-nos desaparecer e nunca mais somos encontrados. É preciso ser respeitador e ter cuidado.

...e, diga-se, nem próximo de ameaçado me senti em lado nenhum mas tenho o máximo cuidado para não dar azo à Lei de Murphy.

Não há nada que aprecie mais do que viajar e, por isso, já o fiz algumas vezes. Já tenho alguma experiência. 
Viajar é espectacular mas pode, muito facilmente, dar merda.

Isto liga-se ao que penso da questão da emigração: eu nada tenho contra a emigração mas os emigrantes têm de se adaptar ao país para onde querem ir e não o contrário.
Se nós, europeus, não podemos andar de cara tapada na rua os emigrantes não podem usar burqa.
Se nós, europeus, não podemos desposar crianças de 12 anos os emigrantes também não o poderão fazer.

Se se quer estar em casa de alguém respeitam-se as regras. Se não forem respeitadas, deveremos ser postos porta fora.

Sunday, November 25, 2018

Regressado mas...

Voltei de 3 semanas de viagem pela Filipinas. Poderia dizer férias mas não foi isso que fiz.

É provável que volte à viagem que acabou e que fale dela mas, neste momento, não é o que me traz cá. Ainda é muito cedo e a ferida do regresso ainda está muito exposta. Será necessário aguardar que cicatrize, o que não é absolutamente certo que venha a acontecer.

Quando estive fora, não tive vontade de regressar. Não estou contente de ter regressado.
Ah, K, gostaste assim tanto das Filipinas?!
Gostei mas não o suficiente para lá querer ficar. Não foi a vontade de ficar que me fez não querer regressar. Na verdade, não foi o abandono que me chateou. O que me chateou foi não continuar para onde quer que fosse, mesmo que fosse dentro do mesmo país.
Até hoje, apenas por uma vez tive pena de sair de um lugar. Só quando estava no aeroporto do Rio de Janeiro pensei quero ficar aqui e foi, também, a única ocasião em que liguei para Portugal a tentar adiar o voo de regresso.

...mas apesar de apenas por uma vez tenha sentido vontade de ficar nunca tive vontade de regressar.

É conhecido por quem por cá vai passando que me agrada confirmar as coisas que digo.
É sabido por quem me conhece que a minha vontade mais latente é sair daqui e ir por aí.
A realidade confirmou o sentimento e afirmação. Não digo que quero ir por aí. Eu quero! ir por aí e andei feliz enquanto andava.

E isto é tão verdade que não estou a exagerar o quanto gostei das Filipinas e nem sequer fingirei que não houve momentos de tensão e lugares que apenas visitei porque pensei que seriam outra coisa.
Nem tudo correu bem. Numa viagem mesmo nem tudo corre bem. Mas ir. Ir. Ir. 
Sinto a necessidade de ver para saber e nunca me arrependi de constatar que não valerá a pena o esforço.
O erro é admissível e faz parte.
Não fazer é uma dor que não me larga.

Ela estava contente por voltar a casa e apesar de confiar no que lhe digo - porque digo sempre a verdade - viu, ao vivo e a cores, que é mesmo isto que eu queria fazer. Bater os pés na terra. Andar em transportes públicos. Comer onde comem os locais. Fugir dos pontos onde todos os turistas se encontram porque o país está noutro lado.

Nada tenho contra Portugal. Portugal é um bom lugar para se viver. O problema não é Portugal.
...o problema sou eu.
Eu quero ir. Eu quero sempre ir.

Friday, November 02, 2018

INCLUSÃO

A minha história é feita de exclusão.
É ler o que aqui anda e que reflecte a realidade como a vejo. Como a vejo mas, mais importante, como me esforço para que seja fiel ao que, de facto, existe.
E eu vejo-me excluído.
Por norma, ainda que assim não seja reconhecido, os mais de nós que se sentem excluídos rebelam-se e sofrem com isso. Apesar de ser comum dizerem que se excluíram e que se sentem orgulhosos de não pertencerem, a realidade é que foram empurrados borda fora. Não saltaram.
Este sentimento é normal. É uma forma de conforto. Evita o falhanço. É como os que preferem nunca competir porque podem perder.

O meu caso é menos comum, ou, pelo menos, assim o entendo.
Já fui social. Já fui convidado para todas as festas. Já tive uma lista telefónica com mais de 200 números. Já fui aos restaurantes mais caros - espero que, agora, possa dizer que vou aos melhores, o que não é a mesma coisa. Já apareci na televisão. Já ganhei campeonatos, tanto individual como colectivamente. 
Fiz isto e fui isto. Deixei de ser e de querer ser.
O último resquício que ainda sobra é capaz de ser o competitivo. Resquício que tento apagar mas que não consigo plenamente. Hoje, evito competição não porque tema perder - já perdi muitas vezes, ainda que o deteste de todas as formas e feitios - mas porque não gosto do gajo que sou quando estou a competir.

....e tudo isto porque fui jantar com os Vegan.

Já por aqui falei deste meu amigo. Um dos poucos amigos que tenho e, muito mais que provavelmente, o meu melhor amigo Homem.
Quando estávamos a jantar, Ela disse que tinha de ir à missa por causa dos Dia de Todos os Santos e o Vegan fez uma piada quanto a seguir a manada.

Ela, por agora ser mais sensível ao que as pessoas dizem e ao que fazem, disse-me, depois, que achava muita graça esta gente super compreensiva e livre seja crítica. E esquisito é, também, que falem em seguir a manada quando fazem o mesmo mas com uma manada diferente.
É verdade.
Ela tem razão.

Eles não são excluídos, como pensam e dizem.
Nos dias que andam a correr, eles são a regra que se está a impor.
É por causa deles que um gajo foi condenado a 16 meses de prisão por maus tratos a animais.

EU sou o que eles dizem que são.
EU não tenho manada.
EU não sigo nada nem ninguém.
...quem vive a amargura da realidade de frente sou eu.

O que eles fizeram foi trocar o Papa pelo Dalai Lama.
Poder-se-á discutir qual dos dois será melhor seguir mas o que para aqui interessa é que se segue alguém.

Ainda neste jantar, perguntei-lhe se gostaria de viver na Índia. Ou, como eles lhe chamam Mãe Índia, o lugar mais super-espectacular do Mundo.
Não, aquilo não tem condições para se viver, disse-me ele.
Até admito que isto não seja hipocrisia mas confrontando o que se diz com o que se sente...não bate uma coisa com a outra.
E o meu problema nem é o desfasamento. O meu problema é esconder o desfasamento.

Eu, por exemplo, direi a quem quiser ouvir que quero ir viver para o meio do monte mas direi, no mesmo fôlego, que precisaria SEMPRE de saneamento básico, internet e tv cabo. Se estas condições existissem, eu iria. Se estas condições não existissem, eu não iria.

....e esta estória que vos conto é um traço dominante em quase tudo com que me deparo no Mundo de que me excluí e é um dos momentos para me ter excluído.

Os outros dizem mas não se sentem forçados a cumprir as palavras.
Eu digo e sinto-me forçado a cumprir o que digo porque as palavras, para mim, só interessam como presságio ou confirmação de actos.

Estes Vegan são pela liberdade e pela compreensão...mas da forma como o Dalai e o Budha lhe diz.
Eu também sou pela liberdade e pela compreensão mas tenho de o fazer sozinho.

Quando deixei de ter um Pai - felizmente, no sentido metafórico porque ele ainda cá anda - não arranjei mais nenhum e não tenho interesse em arranjar.